Uma mostra da segurança no interior
O crime não tem fronteiras no Brasil. Não segue mais limites geográficos e não está mais restrito aos grandes centros. Guardadas certas diferenças, as populações dos municípios interioranos também precisam enfrentar uma rotina cercada de medo quanto às ações dos bandidos. O que é igual, no interior e na capital, é a sensação de impotência gerada pelo simples fato de não se poder fazer muita coisa. Sequer recorrer à polícia. Resta rezar e pedir para não ser a próxima vítima.
No interior do Rio Grande do Norte, encontram-se realidades diferentes. Tanto no que diz respeito às estruturas das polícias Militar e Civil, quanto ao sentimento da população quando se fala em criminalidade. Listando os dez maiores municípios potiguares - com exceção da capital -, é possível ver que os municípios que sediam batalhões da Polícia Militar são de certa forma privilegiados. Contam com a presença de um efetivo maior de policiais, responsáveis inclusive pela ostensividade nos municípios vizinhos.
A equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE visitou os municípios de São José do Mipibu e Nova Cruz, respectivamente o nono e o décimo maiores do estado. E encontrou pontos em comum e outros discrepantes. Em comum, por exemplo, a "epidemia" do crack, a droga derivada da cocaína, em forma de pedra, e que está devastando a vida de milhares de jovens pelo Brasil.
A situação é parecida também quanto à estrutura oferecida pela Polícia Civil, bastante precária em ambas as cidades. No policiamento militar, as realidades são bem diferentes. Nova Cruz, a 93 km de Natal, sedia um batalhão, bem cuidado e operacional. Já São José, ainda sofre com os poucos homens de um pelotão destacado.
A presença dos PMs faz de Nova Cruz uma das cidades mais tranquilas do estado. Assim disseram os populares com quem a reportagem conversou. Os problemas se concentram em brigas de vizinhos, casos de violência doméstica (a Lei Maria da Penha gera muito trabalho no interior), transtornos em bebedeiras e furtos cometidos por viciados em entorpecentes.
Os poucos casos são levados a uma delegacia e é neste momento que as deficiências mostram que a estrutura de segurança na cidade não é completa. A delegacia, que é de responsabilidade da Polícia Civil, não tem estrutura nenhuma. Funciona em uma casa alugada, não conta com computadores e os boletins de ocorrência ainda são preenchidos a mão. Os policiais comem em um restaurante, mas a conta é paga pela prefeitura. Para piorar, o único delegado atende a doze outras cidades da região.
"Saio de casa (em S. José do Mipibu), passo por Brejinho. Depois vou a Santo Antônio do Salto da Onça, e em seguida chego a Nova Cruz", explica José Carlos de Oliveira, delegado regional e municipal. Mesmo assim, ele considera a delegacia regional a melhor do estado, já que a demanda é tranquila (apesar dos 130 inquéritos) e não custodia presos. "Acabamos de receber novas pistolas, algemas e coletes".
No policiamento militar a situação é confortável. O 8º Batalhão da Polícia Militar (BPM) tem conseguido suprir as necessidades do município. Ao todo são 442 homens, dos quais, 119 trabalham em Nova Cruz. Os outros são distribuídos para as companhias e pelotões da região.
A cidade conta com um Grupo Tático de Operações (elite da PM) e serviço de comunicação próprio. O batalhão é limpo, tem um telecentro com dez computadores ligados à internet, quadra, capela e salas-de-aula, onde 33 novos policiais estão sendo formados. "Acho que o segredo para um bom policiamento é efetivo, viaturas e o constante treinamento da tropa", disse o capitão Florêncio Junior, subcomandante do 8º BPM.
O último caso mais grave em Nova Cruz foi uma tentativa de homicídio, em uma briga de família. O acusado, um senhor de 69 anos, foi preso depois de dar uma facada no genro há 15 dias. O batalhão conta ainda com um centro de saúde, onde policiais, familiares e população em geral recebem atendimento em várias especialidades. "Aqui o que acontece muito é o trabalho que dá essa molecada que usa drogas", disse o comerciante Josenito Pereira.
O "calo" do 8º BPM é a custódia de presos. Atualmente muitos policiais não vão às ruas porque precisam tomar conta dos 96 homens, detidos por delitos variados. A situação deve ser resolvida com a conclusão da cadeia pública que está sendo construída na cidade, prevista para acontecer entre dezembro e janeiro próximos.
Dividindo o problema
Interoperabilidade. O termo é desconhecido e difícil de se pronunciar. Mas caso a meta proposta venha a ser alcançada, poderá representar uma melhoria no policiamento da Grande Natal. Interoperabilidade significa o fim dos limites geográficos e impostos pela burocracia das regras da jurisdição. Na prática, policiais de um município poderão intervir e participar de operações realizadas num outro município vizinho.
Atualmente, pela legislação que rege o policiamento, um policial lotado em Natal não pode, por exemplo, ir buscar um criminoso que esteja agindo logo ao lado, no bairro de Nova Parnamirim, por exemplo. O limite dificulta a ação policial e o prejuízo maior é das menores cidades da região metropolitana, que só podem contar com seu próprio efetivo.
A interoperabilidade deve ser instituída a partir da criação do Comando do Policiamento Metropolitano (CPM), que deve substituir o Comando do Policiamento da Capital (CPC). Com isso, os policiais militares que trabalham na região conturbada seguirão um mesmo comandante, contando inclusive com um mesmo serviço de comunicação.
Hoje em dia, quem está em Parnamirim e liga para o 190 em busca de socorro entra em contato com o 3º BPM que, por sua vez, só pode acionar viaturas e policiais lotados naquele município. Com o novo sistema de comunicação, o Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (CIOSP), na capital, vai poder entrar em contato com qualquer guarnição da Grande Natal.
O comando da PM acredita que até o fim de novembro o CPM deve ser instituído de direito. De fato, alguma coisa já está sendo feita e aos poucos policiais de Natal começam a trabalhar em blitzes e operações realizadas em Parnamirim. A medida deve beneficiar principalmente municípios como São José dos Mipibu e Monte Alegre, cujo efetivo policial é reduzido. A interoperabilidade já acontece também em praias como Muriú e Grançandu, para onde foram mandadas viaturas que inicialmente eram lotadas em Natal.
Prefeitos pedem atitude do Governo
No dia 21 do mês passado, os prefeitos de Apodi, Itaú, Caraúbas e Felipe Guerra, mais o chefe de gabinete da prefeitura de Severiano Melo (municípios do Médio Oeste Potiguar) se reuniram e foram até a Sesed cobrar mais empenho na segurança da população. Os prefeitos reclamaram ao secretário Agripino Neto que em suas cidades os criminosos estavam agindo livremente.
As principais reivindicações foram o aumento do efetivo e a melhoria na quantidade de viaturas que patrulham a região. Os prefeitos ressaltaram que as drogas, principalmente o crack, invadiram as cidades, atingindo em cheio a juventude. Enquanto isso, a polícia não encontra formas para combater o tráfico. Itaú e Felipe Guerra, por exemplo, não contam com um agente de Polícia Civil sequer, muito menos delegado.
Na ocasião, o secretário Agripino Neto considerou justas as reivindicações dos prefeitos, mas reconheceu que naquele momento não seria possível atendê-los de pronto. E disse que a situação dos policiamentos ostensivo e investigativo deve melhorar quando forem concluídos os concursos que estão andamento.
do amigo Cezar Alves/jornal de fato.
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